O sucesso de uma iniciativa de restauração ecológica não se mede apenas pelo número de árvores plantadas, mas pela qualidade, diversidade e origem do material genético que vai a campo. No âmbito do Projeto Restaura+, esse trabalho ganha vida através de uma atuação coordenada entre dois pólos de trabalho: o viveiro florestal da Universidade do Estado de Santa Catarina (UDESC) – Câmpus Lages, e o viveiro do Instituto Federal Catarinense (IFC) – Câmpus Abelardo Luz.
Unindo pesquisa e formação de estudantes do ensino médio, de graduação e de pós-graduação, as instituições estruturaram uma rede de produção de mudas de espécies nativas voltada a abastecer as metas de restauração florestal de 361 hectares de áreas degradadas distribuídas em oito territórios do meio oeste catarinense.
UDESC Câmpus Lages: Escala, diversidade e o desafio da germinação
No Câmpus de Lages, o viveiro florestal se destaca pelo suporte fitotécnico dedicado à restauração e pela produção de mudas de 12 espécies nativas da Floresta Ombrófila Mista e da Floresta Estacional Decidual, fitofisionomias que fazem parte do bioma Mata Atlântica. Sob a coordenação do Professor Dr. Márcio Navroski e da pós-doutoranda Walquíria Chaves da Silva, o espaço funciona como um centro de referência e pesquisa.
O foco da produção está na diversidade da flora nativa, com destaque para espécies típicas da Mata Atlântica da região, incluindo a Araucária (Araucaria angustifolia), a grápia (Apuleia leiocarpa), a imbuia (Ocotea porosa), a canela-sassafrás (Ocotea odorifera), o cedro (Cedrela fissilis), o butiá-da-serra (Butia eriospatha) e a cabreúva (Myroxylon frondosum). A escolha não é aleatória; estas espécies foram selecionadas por sua importância ecológica na sucessão florestal, oferecendo resiliência e suporte à fauna local, além de terem sido amplamente exploradas durante os ciclos madeireiros dos séculos XIX e XX em Santa Catarina.
Para a pós-doutoranda Walquíria Chaves da Silva, a parceria representa uma colaboração que gera benefícios para todos os envolvidos e fortalece as ações do projeto:
“Acredito que esse projeto é extremamente importante porque promove uma parceria em que todos ganham. O projeto contribui para o fortalecimento da estrutura do viveiro e amplia as oportunidades de aprendizado dos estudantes, enquanto as ações desenvolvidas favorecem a conservação e a recuperação do meio ambiente. Dessa forma, todos são beneficiados e o projeto continua avançando e alcançando resultados cada vez mais positivos”.
O grande desafio da equipe é dominar a complexidade germinativa de cada espécie. Diferente de uma produção convencional, o cultivo para restauração exige o manejo de lotes diversos, cada um com necessidades específicas de luz, umidade e nutrição, de forma a garantir que as mudas estejam preparadas para os desafios do ambiente de plantio.
IFC Abelardo Luz: O viveiro como laboratório vivo de aprendizagem
Enquanto a UDESC opera com foco na diversidade de espécies, o IFC Câmpus Abelardo Luz tem como objetivo a produção estratégica de mudas, com forte ênfase na conservação da Araucária. Coordenado pelo Engenheiro Agrônomo e Professor Kevim Ventura, o espaço cumpre um papel fundamental de extensão e aprendizado para filhos e filhas de assentados da reforma agrária e das comunidades indígenas kaingang que frequentam o IFC. Diferente dos demais Institutos Técnicos Federais do Estado, o Câmpus de Abelardo Luz foi implantado dentro do Assentamento José Maria e oferece diversos cursos técnicos voltados à realidade das comunidades rurais da região.
A unidade atua como um laboratório a céu aberto para os estudantes do curso Técnico em Agropecuária, que participam ativamente de todas as etapas produtivas — do preparo dos substratos e semeadura, até a irrigação e o manejo fitossanitário.
Para o professor Kevim, a força do projeto está na vivência prática dos alunos bolsistas:
“A participação dos bolsistas permite que eles enxerguem todo o processo, desde a produção da muda até a sua utilização em campo. É uma experiência muito rica porque une formação profissional, responsabilidade ambiental e contato com demandas reais da comunidade.”
Sinergia que impulsiona o futuro da região
A força do Projeto Restaura+ reside nessa engrenagem complementar. Enquanto a UDESC Câmpus de Lages aporta o fôlego científico, a infraestrutura avançada e a diversidade de espécies nativas, o IFC integra extensão comunitária e a formação técnica de base.
Juntas, essas frentes garantem que a restauração florestal da região aconteça sob bases seguras, unindo o rigor acadêmico à força da comunidade escolar em prol de um ecossistema mais resiliente. Ao mesmo tempo, o trabalho dessas duas instituições junto às demais ações do projeto Restaura+ apoiam a estruturação da cadeia produtiva da restauração florestal, como uma alternativa econômica a outras atividades produtivas que não valorizam ou destroem as florestas. O trabalho desenvolvido pelos professores Márcio Navroski e Kevim Ventura e pela pós-doutoranda Walquíria Chaves da Silva transforma o viveiro em uma ferramenta vital de conservação e desenvolvimento para Santa Catarina.
