Restauração

A restauração florestal é um processo que visa auxiliar a recuperação de ecossistemas que foram degradados, danificados ou alterados, com o objetivo de restabelecer suas funções naturais, sua biodiversidade e os serviços ecossistêmicos que eles nos fornecem.

O Restaura+ pretende restaurar 361,73 ha de Mata Atlântica, uma das fitofisionomias mais ricas e ameaçadas do mundo e o bioma brasileiro mais devastado e fragmentado, o que coloca em risco sua diversidade de fauna e flora. Por isso, o projeto Restaura+ é tão importante! 

Estratégias de restauração

As estratégias de restauração do projeto foram definidas a partir dos resultados do levantamento de dados primários e secundários, juntamente com a articulação e mobilização das comunidades beneficiárias realizadas na Meta I do projeto. O levantamento e caracterização da vegetação foi realizado em parceria com o Laboratório de Ecologia Florestal, da Universidade Estadual de Santa Catarina (UDESC), sob a coordenação do Professor Adelar Mantovani e contou com a participação de estudantes de graduação, de doutorado e pós-doutorado. A partir das informações levantadas, especialmente sobre o estágio sucessional dos fragmentos florestais e as pressões antrópicas identificadas no levantamento da vegetação, foi possível classificar os cenários de cada unidade de implantação (UI) da restauração florestal, e com isso, orientar as ações de restauração mais adequadas para cada contexto.

A classificação de cada UI em cenários de conservação seguiu a metodologia proposta pelo IBAMA, no edital de chamamento público que culminou com a realização deste projeto. A classificação em cenários guiou a proposição das metodologias de restauração. O quadro abaixo apresenta os 3 cenários propostos pelo IBAMA e suas principais características.

Cenário Condição Principais características
A
Área com alto potencial de restauração.
Áreas com presença de vegetação regenerante abundante ou próximas a muitos remanescentes de vegetação nativa, ausência ou baixa presença de espécies invasoras e competidoras.
B
Áreas com médio potencial de restauração.
Áreas com alguma presença de vegetação regenerante, próximas a algum remanescente de vegetação nativa, com baixa ou média presença de espécies invasoras e competidoras.
C
Áreas com baixo potencial de restauração.
Áreas sem regenerantes, sem vegetação nativa próxima, com domínio de invasoras e competidoras.

Tendo em vista a classificação das unidades de implantação de todos os territórios nos 3 cenários, foram propostas as metodologias de restauração florestal.

A. Atividades prévias de proteção e controle dos fatores de degradação

Cercamento

Para garantir a proteção das áreas de restauração, especialmente restringindo o acesso à animais de pastejo, são construídas cercas nas zonas onde essa pressão é mais intensa, além de revitalização de cercamento já existente.

Controle de exóticas

Para evitar a dominância de espécies exóticas e/ou invasoras, que dificultam o sucesso da restauração, realizamos o manejo dessas espécies identificadas nas UIs. Sendo as principais o pinus, eucalipto, uva-do-japão e ligustro.

B. Adoção de técnicas de restauração florestal de acordo com os cenários de conservação

Condução da regeneração natural

Para áreas que apresentam bons parâmetros fitossociológicos e sem a presença de exóticas, adotamos a regeneração natural, protegendo e isolando as áreas para que a vegetação se estabeleça de forma natural.

Adensamento

Nas áreas em processo de regeneração, mas que apresentam espaços vazios ou baixa densidade de indivíduos, é realizado o plantio adensado de mudas, com o objetivo de aumentar os números dessa população.

Enriquecimento

Tem como objetivo adicionar espécies de ocorrência natural, com baixa densidade ou inexistentes nas UIs, a fim de incrementar a riqueza e a diversidade genética das populações das espécies que compõem o projeto.

Plantio em linhas

Em áreas com baixo potencial de regeneração, com pouca ou nenhuma vegetação, adotamos esse sistema mais intensivo, que consiste no plantio no plantio total em linhas, com uma maior diversidade de espécies e de diferentes estágios sucessionais. Essa técnica será aplicada apenas em pequenas frações das UIs que apresentam essa condição.

Nucleação

Em áreas com médio e baixo potencial de restauração, serão criadas “ilhas” de vegetação, com um plantio estratégico, servindo como pontos de partida para a regeneração natural, acelerando a restauração e, com o tempo, se conectando aos fragmentos florestais do entorno.

Determinação do número total de mudas

Para determinação do número total de mudas das espécies a serem utilizadas na restauração, foi considerada a área das unidades de implantação (UI) como referência, utilizando uma estimativa fixa do número de mudas por hectare, sendo 400 plantas/ha ou, correspondentemente, uma planta a cada 25 m2 (5 m X 5 m). Este parâmetro baseou-se nas técnicas de enriquecimento pelo plantio de mudas. No entanto, para as demais técnicas propostas para as UIs, esse número fixo foi  adaptado.

Espaçamento de plantio e proporção de indivíduos de acordo com o seu grupo sucessional.

Tipos Espaçamentos de plantio Proporção Mortalidade*
Mudas
Larg. (m) Comp. (m) Área (m2)
Alvo
5, 5, 25
50%
Clímax
5, 5, 25
15%
10%
Outras
5, 5, 25
35%

*Valor de referência para todos os tipos de mudas.

Houve a separação de espécies em duas condições principais, sendo as espécies-alvo do projeto, definidas no edital do IBAMA n° 02/2018, e composições de outras espécies de interesse pelas comunidades ou com algum grau de importância na restauração (espécies prioritárias). Excluindo-se as espécies-alvo, houve uma segunda separação, dividindo entre espécies clímax e “outras”, sendo estas compostas por pioneiras e secundárias.

Tendo em vista o foco nas espécies-alvo do projeto, a proporção final do número de mudas foi dividida em três. Para as espécies-alvo, utilizou-se a medida de 50% das mudas a serem produzidas e plantadas. Para as espécies clímax mencionadas pelas comunidades e consideradas como importantes para a restauração, adotou-se a medida de 15%, em função da sua dificuldade de produção e sua possível raridade. Para as outras espécies, ou seja, pioneiras e secundárias, considerou-se o valor de 35%. 

Ainda foi estimada uma mortalidade de mudas de 10%.

Espécies que compõem o projeto

Foram definidas as 10 espécies prioritárias para restauração das unidades de implantação (UI) do Grupo Territorial II. Parte dessas espécies vieram do edital de Chamamento Público do IBAMA nº 02/2018, que definiu como espécies prioritárias para restauração: a araucária (Araucaria angustifolia), a imbuia (Ocotea porosa), a canela-preta (Ocotea catharinensis) e o xaxim (Dicksonia sellowiana). Dentre essas espécies pré-definidas no edital, cabe destacar que a canela-preta não tem ocorrência natural na região do Grupo Territorial II. 

As demais espécies prioritárias para restauração definidas no projeto Restaura+ foram: grápia (Apuleia leiocarpa), canela sassafrás (Ocotea odorifera), butiá da serra (Butia eriospatha),  cedro (Cedrela fissilis), cabriúva (Myrocarpus frondosus), erva-mate (Ilex paraguariensis) e bracatinga (Mimosa scabrella).

No caso do xaxim, sua produção em viveiros encontra-se em fase inicial de pesquisa e até o momento foi registrada uma baixa taxa de sucesso produtivo (Biasi; Valle, 2009; Selva et al., 2023). Não obstante, neste projeto, a proposta de restauração com o uso desta espécie consiste em propiciar um ambiente adequado para o estabelecimento de esporos dispersos naturalmente pelas populações já existentes de xaxim nos locais a serem restaurados, bem como viabilizar a transposição de indivíduos no caso de licença de supressão de vegetação na região em áreas com ocorrência da espécie.

O processo de escolha de espécies prioritárias ainda contou com uma consulta às comunidades beneficiárias do projeto, por meio do diagnóstico socioeconômico e de oficina participativa realizada em outubro de 2024.

Lista das espécies, nome popular e quantidade de mudas a serem produzidas no projeto Restaura+.

Espécies Nome Popular Nº de mudas
Apuleia leoicarpa*
Grápia
5.906
Araucaria angustifolia*
Araucária
39.695
Butia eriospatha
Butiá-da-Serra
2.831
Campomanesia guazumifolia
Sete-Capotes
6.801
Campomanesia xanthocarpa
Guabiroba
9.357
Cedrela fissilis
Cedro
4.583
Cordia americana
Guajuvira
4.876
Drimys brasiliensis
Cataia
3.452
Erythrina falcata
Corticeira-da-serra
3.223
Eugenia involucrata
Cereja-do-rio-grande
2.218
Eugenia uniflora
Pitanga
1.235
Ilex paraguariensis*
Erva-mate
6.677
Inga virescens
Ingá-verde
2.958
Luehea divaricata
Açoita-cavalo
1.360
Maytenus muelleri
Espinheira-santa
660
Mimosa scabrella*
Bracatinga
4.191
Myrocarpus frondosus*
Cabreúva
11.364
Nectandra grandiflora
Canela-amarela
1.598
Ocotea odorifera*
Canela-sassafrás
6.440
Ocotea porosa*
Imbuia
20.265
Ocotea puberula
Canela-guaicá
2.595
Ocotea pulchella
Canela-lageana
2.631
Parapiptadenia rigida
Angico-vermelho
3.845
Schinus terebinthifolius
Aroeira-pimenteira
5.818
Vitex megapotamica
Tarumã
4.583
Total
159.162

*Espécies-alvo do projeto

Caracterização genética

O sucesso de projetos de restauração ecológica depende de diversos fatores interligados. Mudas produzidas a partir de sementes coletadas de árvores diferentes garantem maior variabilidade genética, tornando as populações mais capazes de resistir a variações ambientais, doenças e outros estresses ao longo do tempo. Por isso, adotar critérios técnicos para a escolha das matrizes, fontes de sementes, com base na caracterização genética das populações, assim como boas práticas de coleta e armazenamento, é fundamental para assegurar que as populações restauradas tenham maior potencial de adaptação e sobrevivência. O Núcleo de Pesquisas em Florestas Tropicais (NPFT) da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) é responsável pela caracterização genética das populações de 10 espécies-alvo prioritárias para o projeto. Para cada espécie, estão sendo genotipadas duas populações em cada território, identificando as que apresentam melhores características genéticas e definindo as áreas de coleta de sementes.

Coleta de sementes

A coleta de sementes de espécies nativas tem como objetivo a produção de mudas adaptadas às condições específicas de cada território do projeto, através da identificação das árvores matrizes que apresentam alto vigor, boa produção de frutos e qualidade das sementes. Ao todo o projeto prevê a coleta de aproximadamente 500 kg de sementes nativas. Para as espécies-alvo do projeto, as matrizes são identificadas em parceria com o NPFT/UFSC, após caracterização genética. Já para as outras 15 espécies, as matrizes são selecionadas em campo, com base na observação de suas características fenotípicas, como sanidade, produtividade e adaptação aos locais. Além de servirem para produção das mudas para o projeto, a coleta das sementes é realizada por agricultores(as) e indígenas que vivem nos territórios do projeto, de forma a gerar renda complementar às famílias e ampliar o leque de oportunidades de atividades produtivas.

Produção de mudas

Ao todo, o projeto produzirá 159.162 mudas das espécies nativas para todas as Unidades de Implantação (UIs). Para viabilizar essa meta, estão sendo realizados investimentos no fortalecimento da estrutura de viveiro da instituição parceira UDESC/CAV em Lages, que é responsável pela produção de 80.081 mudas. Também está sendo realizada a construção e estruturação de um viveiro florestal no Instituto Federal Catarinense (IFC) Câmpus Abelardo Luz, que irá produzir 30.000 mudas, especificamente de araucária (Araucaria angustifolia). Para o restante das mudas necessárias será firmada uma terceira parceria para a produção de 49.081 mudas. Através desses investimentos, as instituições parceiras permanecerão com as estruturas implantadas após o término do projeto. Essa ação do Restaura+ fortalece a formação acadêmica, amplia as capacidades técnicas das instituições e ainda contribui para a produção de mudas para futuros projetos de restauração.

Painel de acompanhamento

Painel de acompanhamento (cercamento, agricultores contratados, boletins informativos, exóticas, sementes coletadas, mudas produzidas e plantadas).

Painel de acompanhamento (cercamento, agricultores contratados, boletins informativos,

exóticas, sementes coletadas, mudas produzidas e plantadas).

Agricultores contratados para cercamento
Coletores(as) de sementes contratados(as)
Metros de cerca construídas
Número de plantas exóticas manejadas
16
7
950
2.965
Kg de sementes coletadas
Mudas produzidas
Mudas plantadas
57
0.
0.